Algo sobre Skate

Skate2

Você entra pro skate com uns 11, 12 anos, vendo os locais mandando alguns grinds, gaps, bordas, e pensa: Cara, isso é extremamente louco! Em seguida você ganha um skate desses de mercado com desenhos na lixa todos a sua volta acham lindo o ato de você estar ali cheio de proteção fazendo aqueles bilhas rodarem. Ali você começa a ter seu primeiro contato, compra revistas e vê vídeos e assim o desejo vai aumentando. Com uns 14 ganha um skate de verdade, segunda mão, mas algo muito melhor do que você estava, uns rolamentos abeck 5 e agora consegue embalar e por incrível que pareça o flip, heelflip começa a aparecer, de vez em quando brinca de Game of Skate com os camaradas, começa a visitar as pistas, tenta alguns grafites. O tempo passa e você já está andando com um Mp3 sem deixar sair da orelha. As bordas estão começando a deslizar, crooked já encaixa perfeito, kickflip, flip, heelflip na base, e as manobras de swith começam aparecer. Chega o dia do seu nome e tu agora és um rapaz, dezoito anos e seus pais intimidam-no a trabalhar, porque se não trabalhar naquela casa você não viverá mais. Agora fica mais difícil, o progresso é mais lento, fica alguns dias sem andar. Dois anos se passam nessa monotonia. Vinte anos e por extinto você decide seguir no skate porque é isso que você quer, é isso que te faz feliz, é isso que vale a pena lutar. É nesta hora então, que ninguém mais acha bonito andar de skate, agora a sociedade não gosta de você e todos te nomeiam marginal e vagabundo e nessa hora também acontece de muitos amigos abandonarem o carrinho.

Agora tu sais de casa, e arruma um canto em alguma alameda beirando a Av. Paulista. Consegue um emprego numa loja da galeria do rock, e vive só com o necessário, porque é assim que skatistas vivem: no limite. Você abre mão de tudo, estudo, trabalho e ainda é obrigado a ser mal visto por pessoas que com medo escravizaram-se pelo colarinho branco.

O desejo bate e você faz uma tatuagem, coloca alguns alargadores, e põe o boné pra frente para encontrar com os camaradas na Praça Roosevelt, pobre praça, aos relentos, depredada, escura, ninguém se atreve a pisar ali, somente nós skatistas andamos ali, afinal já estamos acostumado a lugares assim.

Queremos lugares para andar e o povo quer um lugar para o lazer, e então o governo começa as obras na Roosevelt. Nós não ficamos parados e então acontece o Wild in the Streets 2011, mais de quatro mil skatistas descendo as ruas de São Paulo em prol de inclusão para quem pratica o esporte. Paramos na frente da praça e fazemos nosso discurso. As obras terminam, a praça fica linda, iluminada, bancos novos, os moradores adoram, o governo atende nossas preces e faz um lugar minúsculo para a prática do esporte,  novamente somos rebaixados, obvio então que os skatistas vão andar onde é maior, os moradores odeiam a idéia e querem nos expulsar mais vou lhes dizer uma coisa. Antigamente quem dava vida aquelas bordas éramos nós! É a mesma coisa que um filho expulsar um pai de casa, não existe! Nós pedimos um lugar para andar e nos dão um lugar pequeno. Esse é o mal de ser skatista, ser insultado diariamente, não há pistas, como há campos de futebol, se quiser andar em pista tem que pagar uma condução, então vamos para a rua, andar em qualquer chão quebrado que acharmos que a foto ficará boa.

Em suma, nós skatistas vivemos na precariedade, tênis rasgados, camisas rasgadas, remando em lugares depredados, e quando estes lugares melhoram, não somos mais aceitos porque nos consideram arruaceiros vagabundos. Só lhes digo uma ultima coisa, esta cidade é um lixo, é cinza e antiga, pintada com mendigos em todo lugar, vocês vão trabalhar olhando para os grafites feitos por caras como nós, e se disser que isso não anima o seu dia quando o olha pelo vidro do carro ou do metro ou até mesmo do ônibus, é mentira. Músicos como nós estão ai circulando no meio de comunicação, e vocês o escutam enquanto olha o grafite. Então, pra completar a imagem falta algum skatista mandando um 360flip enquanto o seu trem segue rumo ao seu trabalho, e sem querer você olha para si, e percebe que usa as nossas roupas. Não pedimos nada além de espaço na sociedade, e temos direitos assim como o ciclista ou o motorista.

Muitos levam uma vida, como descrita no começo do texto, e eles estão ai, buscando espaço em campeonatos amadores, porque só uma coisa os move: Felicidade em estar praticando um esporte com amigos, do que estar com uma gravata ganhando muito dinheiro sem sequer ter um amigo. E eles se lembram disso todos os dias, e nunca desistem.

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